se agarra na teia

•março 21, 2011 • Deixe um comentário

As cigarras sabem que seu destino não tem glamur. Sua reprodução é o fim da linha, fim de um canto com mais de 1.200 decibéis.

Depois de expurgar os ovos, que eclodirão no mês de setembro, as cigarras têm um encontro natural com a foice da morte.

Já as ninfas órfãs desabrocham na primavera e enterram-se em buracos. Precisam adolescer logo, chupando a seiva das raízes submersas de árvores líricas. Estão a sós, as vampirescas pequenas ninfas.

Além da fama das fábulas que as associa a lassidão, ainda contam com a inimizade dos lavradores, principalmente os de café. O canto não só as protege dos predadores, mas as tornam insuportáveis nas tardes de verão.

As hospedeiras sugam somente o sumo da seiva, deixando nada. Não são como os beija-flores politicamente corretos.

As cigarras possuem micro escavadeiras nas mãos dianteiras. E quando é inverno, fazem sexo…

No que a cigarra pensava?

pensava em fumar cigarro ou bebericar café?

a agonia de ser almoço de aranha era tamanha?

Onde estava a cabeça da cigarra?

antes da testa colada na teia?

Quis eleger seu jeito livre de morrer?

Mesmo com três olhos a cigarra não pode ver?

A cigarra quis nascer,

Ou desobedecer?

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Periquito-Homem

•dezembro 17, 2010 • Deixe um comentário

 

 

Ato 1

Ele me veio quando o livro sagrado foi aberto. Dentro das palavras uma dobradura em forma de pássaro, um periquito robusto e verde, com rabo de belas penas, saltou aos meus olhos, lânguido. No momento em que permiti a tal artimanha, o bípede encheu-se de vida diante das palavras de exortação do Rei Davi ao povo de Jerusalém no primeiro livro de Eclesiastes:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar; Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar; Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”.

A criatura voou para fora da página, num ímpeto de liberdade, como se fosse tempo de vir à tona, respirar o ar, tornar-se abarrotado. Se fazendo vivo e pulsante a partir do meu sonho. Ao ouvir o canto tristonho do periquito que voava pelos quatro cantos da sala, atordoado pelas palavras e pela própria canção que trazia no bico, desejei nunca ter aberto o livro e desejei mais ainda nunca ter manifestado das palavras, aquele periquito verde água tão lírico, mas sabia que já era tarde.

Ato 2

O tempo foi passando como decretava as exortações do Rei, entretanto, nossa relação foi acutilada pela mutação dele, e sem que eu notasse, o periquito alcançara a imagem e semelhança de um homem, tão jovem quanto eu. Era curioso o sopro do periquito-homem, e agora que possuía miolo de humano e raciocínio de gente e não de bicho, cobiçava novos vôos em terra, cavando sua trajetória, cravando os pés no mundo. Não era mais pássaro, não tinha mais bico, nem cantava mais aflito, não comia mais sementes, nem tinha medo de gente, muito menos cairia em bestas arapucas pungentes.

Ato 3

Foram tempos de muita dor. Meu cerne se encheu de martírio ao entender que o periquito lânguido e verde havia se desvairado e adquirido senso crítico. E lacrimejei, pensando que não era mais o meu sonho, agora eram os sonhos do homem-periquito. Numa ocasião em que estávamos a sós, tentei num abraço maquiavélico, reduzi-lo ao ponto de partida, a dobradura origami dentro da bíblia. Mas o periquito-homem me olhou com desconfiança e pesar, indagando os motivos do aperto forte e desmedido. Abaixou os olhos e saiu com a roupa do corpo, humano e desapontado.

Ato 4

Dias depois, recebi um bilhete enfeitado de penas verdes água, a princípio, não pude entender em que tempo estavam os verbos, mas as palavras simples me indicaram o que havia de ser: “Pois, você me desprezou, senti que era tempo de odiar aquela que me deu o sopro da vida na ilusão, experimentei o estar vivo, lhe sou grato e lhe tenho amor de pássaro”.

Fim

O periquito-homem nunca mais voltou para casa, afastou-se de mim para sempre, não sei se por medo, tristeza, ódio, ou se talvez por amor, não sei se por saudades de céu, mato ou de mar. Foi difícil aceitar, mas, com o passar dos anos entendi que periquito-homem é de tempo longínquo, quiçá inalcançável, antes mesmo das denominações das coisas e das palavras, antes mesmo do tempo, do intento da poesia, antes da imaginação de um sonho.

Oxiúros lunáticos

•novembro 25, 2010 • Deixe um comentário

a sobra nutre o solo estéril

do coração que arqueja

cevando vermes poetas

baldios como poemas,

sintéticos na imensidão

tripudia por aresta defuntas,

o calo da poesia,

onde encontra voz

na mata por fora da vida,

no grito do grilo espesso,

no gracejo do percevejo,

o verme chora… esperando lua

Jotalhão

•setembro 14, 2010 • 1 Comentário

Era de uns 30 e poucos anos. Careca. Gordo. CAGALHÃO.Como quem come um mundo de podridão, todos os dias, J assinava as tardes entediantes, com o fedor insuportável de merda socada do cu.

Bosta robusta, daquelas que só diabo solta do inferno quando despeja no mundo desgraças e detritos funestos.

Antes mesmo de bater na água a merda já fétida, ecoava pelos quatro cantos do reto.

E as mentes das máquinas se confundiam ao primeiro filete de sentido agudo do cheiro.

Quando tocava no ar, era agoniante para olfato e paladar das bocas que se calavam em peso. O cheiro de tão forte se transformava em gosto e o desgosto da vida era carimbado na língua pesada, calada.

Não importava o clima, se quente, frio ou morno, ou gelado, a bosta vinha e com intensa anomalia fervente, rasgando a tranqüilidade nasal das máquinas do salão amarronzado.

E depois passava ele, pesado e leve,  sério, mal humorado e gordo.  Cagalhão por natureza e destreza. Destruindo a bondade do ar, transformando tédio em desespero nas tardes de todo santo dia.

•setembro 14, 2010 • Deixe um comentário

Quando o mundo abandonar o meu olho.
Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer?
Quando o silêncio que grita do meu olho não for mais escutado.
Que hei de fazer?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
– Dormir, talvez chorar.

MANOEL DE BARROS
em Retrato do Artista Quando Coisa, Ed. Record, 1998

Comentário pessoal

Sempre penso que é no sono onde a minha vida acontece e olha o mundo. Apesar de soar estranho, sendo a atividade do corpo vital para um desempenho saudável dos órgãos. Mas quando sonho, experimento as mais enigmáticas sensações, muitas vezes absurdas, o que muito me agrada por serem intensamente nebulosas e estranhas.

Chita

•setembro 13, 2010 • Deixe um comentário

Engajada com tanto esmero pela outra, se perdia dentre tantos deslumbrados absurdos que fazia para parecer, mas nem de longe conseguia.Queria ser igual por natureza, coisa que nem a morte conceberia.  Contudo era só o que valia para quem por dentro se mostrava inteira e vazia .

Acordava dia a pós dia, e no café que bebia, sempre as mesmas gotas de vontade: – A outra é que me completaria!

O deslumbre na cara boba era explícito e pungente. Também a cabeça cheia de vento que se esvaia na monotonia. Queria ser o que via de frente e por trás seguia, de lado muito sofria, mas de quina se abria intensamente.

Uma tarde ganhou um biscoito da sorte e leu a mensagem que por ironia dizia: “Hoje te falta senso, verdade, originalidade e ousadia”. Comeu a massa seca e deu mais três passos rumo ao vácuo dos seus rasos dias.

dentro

•setembro 13, 2010 • Deixe um comentário

apronto do corpo

ao receber o outro

num leve gracejo

de beijo, desejo

penínsulas de carne

inteiras se derretem

ao gemido gutural

me mete! me mete!